Quais as condições que possibilitam a vida enquanto fenômeno estético?
A idéia de fenômeno estético nos deixa a pensar um tanto sobre a experiência estética, seja por parte do autor, seja por parte do espectador. Em ambos, o fenômeno estético está presente, ainda que para provocar a experiência estética. Queria Nietzsche pensar a vida como esse fenômeno estético em suas obras da juventude. [1] O autor distingue a força apolínea da dionisíaca, onde o processo contínuo de conflito entre ambas possibilita o eterno movimento das coisas. Para Nietzsche enquanto o apolíneo manifesta a aparência, o dionisíaco é responsável pelo êxtase que se contrapõe ao apolíneo, mas não a nega, e nesse conflito nasce a possibilidade de sair do movimento cotidiano. O velho Nietzsche abandona sua postura da juventude e deixa expressar que a arte é o único “antagonista natural” dos ideais ascéticos. [2] Explicita isso quando busca num histórico da consciência humana aquilo que gera os valores morais, tendo os ideais ascéticos presentes na filosofia, na ciência e na religião. Fica claro que o autor encontra o verdadeiro “antagonista” do ascetismo na arte. Para isso, conclui que a vida se dá num movimento estético – único capaz de tirar o homem do cotidiano; pelo êxtase dionisíaco (adapta seu pensamento das obras da juventude). Bem... podemos, aqui, entender como em Nietzsche a arte pode sucumbir o ascetismo e, portanto, libertar a consciência humana... entendemos, assim, a vida num processo do movimento estético.
Por um contra-argumento...
Em contrapartida, temos a obra do Luigi Pareyson [3] toda dedicada às questões da estética. Em certo momento, ele nos mostra como acontece a experiência estética. Para isso, entendemos que a experiência estética acontece a partir da contemplação de uma obra de arte. Bem... ele define arte como um “fazer em se fazendo”, um “por fazer”, processo fabril enquanto se está fazendo, no instante do fazer. Neste processo, o artista concebe a obra. Esta, por sua vez, é um objeto fabril, artificial. Deste modo... uma experiência estética só é possível partindo de um objeto artificial. Bem, como pensar a vida como fenômeno estético se este acontece a partir de um objeto artificial, fabril? Seria possível pensar a vida como um algo artificial criada por mãos humanas? De fato, em se pensando biologicamente, e mesmo em outros termos, a vida escapa à criação do homem. Seria estupidez perceber o sol como objeto artificial, portanto, como obra de arte. Do mesmo modo, a vida cotidiana humana não está no campo do fabril humano. Sendo assim, provavelmente não pensaríamos a vida como fenômeno estético, sendo este um fenômeno de criação humana.
A questão, então, é: Quais as condições que possibilitam a vida enquanto fenômeno estético?
Referências:
[1] A Origem da Tragédia – Nietzsche
[2] Genealogia da Moral (Terceira Dissertação) – Nietzsche
[3] Os Problemas da Estética – Luigi Pareyson
Bruno Franco
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Filosofia - possíveis definições
Um grande debate valida as questões em torno das possíveis definições de "Filosofia". Elencar as muitas possíveis definições de "filosofia" pode tomar o tempo de quase três mil anos de história do pensamento e ainda atravessaríamos muitos anos de boa briga e bons embates. O fato é que as tentativas de definir "filosofia" ultrapassam as filosofias de muitos pensadores desde que se tem notícia desse saber, ainda que anterior a Tales de Mileto e a nomeação de tal por Pitágoras. De acordo com o pensador alemão Heidegger, a pergunta “Qu´est-ce que la Philosophie?” (“O que é isso – a Filosofia?”), título de uma de suas conferências, apresenta antes algumas questões em torno da própria formulação da pergunta que revela um modo próprio do pensar grego, que define todo o modo do filosofar ocidental. De certa forma, as muitas filosofias construídas desde então, partem da pergunta categórica “ti estin” (“O que é isto?” em grego, também uma categoria aristotélica). Assumida na filosofia kantiana como, também, um modo de conhecer a realidade via categoria.
De acordo com alguns pensadores contemporâneos, a filosofia acabou e Hegel seria o último grande filósofo. Este pensamento é marcado pela idéia de que filosofia se dá como um grande sistema. Não há uma unidade em toda filosofia, mas existem filosofias e sistemas. Seria bom se nós conseguíssemos entender o que é um sistema filosófico. Quando um filósofo filosofa, ele cria um sistema onde suas questões passam por todos os campos do conhecimento – saber; mas vale lembrar que existe uma questão cerne que move todo o sistema. A questão cerne movimenta o pensamento filosófico daquele filósofo. Quanto a nós, ler seu autor é entender primeiro essa questão e conseguir vê-la nos outros campos do sistema desse filósofo, como cerne. Ainda nesse raciocínio sobre sistema filosófico, todo filósofo tem uma questão cerne, tem uma ética, uma epistemologia, uma ontologia, uma estética e etc. E cada um desses campos tem a questão central de fundo. Algo como, entender a ética de Platão sem conhecer seu mundo das idéias é desprezar todo seu sistema. Da mesma forma que entender a estética de Kant sem compreender sua questão central, é jogar fora esse grande filósofo. Sendo assim, dizem alguns autores que Hegel foi o último filósofo por ter sido o último que teve um sistema filosófico.
Os problemas com as definições de filosofia vêm de todos os cantos e de todos os tipos. Um grande erro que não dá pra evitar é o de associar filosofia com pensamentos de reflexão, como frases feitas, frases soltas que gostam de dizer que são axiomas, “verdades” soltas mais subjetivas que universais, que só revelam a falta de intimidade com a filosofia. Comumente ouvimos “filosofia de vida”, ou mesmo “a minha filosofia”, ou “sigo a filosofia x”... Bom, não estou indo contra a idéia de a filosofia estar no dia a dia, mas acho que um pouco de hermenêutica (meio heideggeriana rs) ajuda aos tantos: a filosofia como detentora do “logos” se desvela no discurso. Para tanto, o discurso acontece de modo denso. É pelo discurso que a razão se exerce. Na verdade, é como se a filosofia só fosse possível pelo discurso, pelo exercício da razão via esse discurso. (repetitivo, né?! rs) Por isso, um bom estudo hermenêutico clareia a compreensão de filosofia. Sem desprezar um método próprio para cada filósofo.
Bem, esse extenso tópico é para levantar a discussão quanto às possíveis definições de “filosofia”. Porém, vamos abandonar as definições equívocas como “reflexão”, “criação de conceitos”, “criação de teorias” e etc. Eu digo “equívocas” porque primárias.
De acordo com alguns pensadores contemporâneos, a filosofia acabou e Hegel seria o último grande filósofo. Este pensamento é marcado pela idéia de que filosofia se dá como um grande sistema. Não há uma unidade em toda filosofia, mas existem filosofias e sistemas. Seria bom se nós conseguíssemos entender o que é um sistema filosófico. Quando um filósofo filosofa, ele cria um sistema onde suas questões passam por todos os campos do conhecimento – saber; mas vale lembrar que existe uma questão cerne que move todo o sistema. A questão cerne movimenta o pensamento filosófico daquele filósofo. Quanto a nós, ler seu autor é entender primeiro essa questão e conseguir vê-la nos outros campos do sistema desse filósofo, como cerne. Ainda nesse raciocínio sobre sistema filosófico, todo filósofo tem uma questão cerne, tem uma ética, uma epistemologia, uma ontologia, uma estética e etc. E cada um desses campos tem a questão central de fundo. Algo como, entender a ética de Platão sem conhecer seu mundo das idéias é desprezar todo seu sistema. Da mesma forma que entender a estética de Kant sem compreender sua questão central, é jogar fora esse grande filósofo. Sendo assim, dizem alguns autores que Hegel foi o último filósofo por ter sido o último que teve um sistema filosófico.
Os problemas com as definições de filosofia vêm de todos os cantos e de todos os tipos. Um grande erro que não dá pra evitar é o de associar filosofia com pensamentos de reflexão, como frases feitas, frases soltas que gostam de dizer que são axiomas, “verdades” soltas mais subjetivas que universais, que só revelam a falta de intimidade com a filosofia. Comumente ouvimos “filosofia de vida”, ou mesmo “a minha filosofia”, ou “sigo a filosofia x”... Bom, não estou indo contra a idéia de a filosofia estar no dia a dia, mas acho que um pouco de hermenêutica (meio heideggeriana rs) ajuda aos tantos: a filosofia como detentora do “logos” se desvela no discurso. Para tanto, o discurso acontece de modo denso. É pelo discurso que a razão se exerce. Na verdade, é como se a filosofia só fosse possível pelo discurso, pelo exercício da razão via esse discurso. (repetitivo, né?! rs) Por isso, um bom estudo hermenêutico clareia a compreensão de filosofia. Sem desprezar um método próprio para cada filósofo.
Bem, esse extenso tópico é para levantar a discussão quanto às possíveis definições de “filosofia”. Porém, vamos abandonar as definições equívocas como “reflexão”, “criação de conceitos”, “criação de teorias” e etc. Eu digo “equívocas” porque primárias.
Considerações sobre a Filosofia no Ensino Médio
O ensino público do país precisa de reparos. Reparos profundos e sérios. Dentro da grande crise que se agrava na educação brasileira está uma outra questão que precisa de grande atenção e de cuidados, é o ensino da filosofia e a aplicação das novas medidas sobre ela.
O que se tem feito nas salas de aula não ultrapassa o objetivo limitado do imediatismo. Já deveríamos ter superado a discussão acerca do conteúdo, não deveríamos mais dedicar o tempo na discussão se a filosofia deve falar dos fatos “cotidianos” ou se deve ir a leitura dos clássicos, deveríamos ter superado essa discussão e pensarmos na articulação entre os métodos que não priorize nenhum dos dois. A realidade da sala de aula está longe da que prevemos nas “medidas” descritas, mas sem nenhum vinculo com o que de fato acontece.
Muito se tem discutido acerca da transmissibilidade da filosofia. Essa questão trás consigo a questão do despreparo do professor, não só o de filosofia, mas a falta de preparo que o professor tem que ter diante das novas exigências dessa escola que acabou de nascer. O aluno é outro e o professor ainda não se deu conta disso. O professor de hoje ainda não conseguiu entender qual é sua nova função. Celso Antunes no livro “Como transformar informação em conhecimento” mostra que a velocidade do mundo atual fez um novo aluno, um novo aluno que a escola não está preparada para receber. Principalmente porque o professor ainda não descobriu sua nova função na sala de aula. Ainda estamos presos na idéia antiga de que o professor tem o papel de transmitir algo aos alunos, quando que na verdade sua função hoje deve ser o de transformar o que o aluno já tem em conhecimento. A questão da transmissibilidade é uma dessas discussões que ainda está presa ao antigo aluno e não chegou às novas exigências que precisam de um novo professor capaz de trabalhar o que o aluno já trás consigo e transformar isso em conhecimento. Quando se tira o enfoque da educação da transmissão de algo (e isso não acontece apenas com a filosofia, mas ressalto toda questão educacional) e coloca em algo que o aluno já trás consigo, ficando ao professor a tarefa de gerar o conhecimento, o professor tem sua função deslocada e o que vemos hoje é a dificuldade de se descobrir seu novo horizonte. O problema é em toda estrutura educacional que não se reestruturou diante desse novo aluno que acabou de aparecer. A discussão passa pela questão: que professor é esse que tem que nascer? Qual seu papel? – o que tenho visto nas escolas é o despreparo do corpo de professores diante dessa situação. O professor que detém conteúdo necessário, mas que peca em didática por tentar aplicar ainda hoje o que servia para o aluno de ontem. O resultado não foge ao que temos notícia: alunos fora das salas de aula, alunos que não cumprem com os requisitos das aulas, alunos que não respeitam os professores ou mesmo que não vê neles alguém que trás consigo algum tipo de autoridade (se é que o novo professor trás alguma autoridade).
A própria idéia de educação tem ficado polissêmica nas instituições de ensino, até numa única instituição os professores não tem clareza do conceito. Dessa forma, a dificuldade por um ponto de partida é logo imediata. Talvez devêssemos nos ater ao método socrático da maiêutica e sairmos da postura de professor que deve transmitir algo para assumirmos uma postura de quem trabalha o que o aluno tem e o transforma em conhecimento. Talvez encontrássemos respostas nos antigos filósofos para os dias de hoje e sairíamos de uma posição pouco privilegiada para assumir um posto mais próximo do aluno de hoje que não vê autoridade no professor, mas o professor ainda sustenta essa aparência. Talvez somente assim, “dando a luz” ao que os alunos trazem para as salas de aula, poderíamos encontrar novas respostas para o ensino brasileiro.
O que se tem feito nas salas de aula não ultrapassa o objetivo limitado do imediatismo. Já deveríamos ter superado a discussão acerca do conteúdo, não deveríamos mais dedicar o tempo na discussão se a filosofia deve falar dos fatos “cotidianos” ou se deve ir a leitura dos clássicos, deveríamos ter superado essa discussão e pensarmos na articulação entre os métodos que não priorize nenhum dos dois. A realidade da sala de aula está longe da que prevemos nas “medidas” descritas, mas sem nenhum vinculo com o que de fato acontece.
Muito se tem discutido acerca da transmissibilidade da filosofia. Essa questão trás consigo a questão do despreparo do professor, não só o de filosofia, mas a falta de preparo que o professor tem que ter diante das novas exigências dessa escola que acabou de nascer. O aluno é outro e o professor ainda não se deu conta disso. O professor de hoje ainda não conseguiu entender qual é sua nova função. Celso Antunes no livro “Como transformar informação em conhecimento” mostra que a velocidade do mundo atual fez um novo aluno, um novo aluno que a escola não está preparada para receber. Principalmente porque o professor ainda não descobriu sua nova função na sala de aula. Ainda estamos presos na idéia antiga de que o professor tem o papel de transmitir algo aos alunos, quando que na verdade sua função hoje deve ser o de transformar o que o aluno já tem em conhecimento. A questão da transmissibilidade é uma dessas discussões que ainda está presa ao antigo aluno e não chegou às novas exigências que precisam de um novo professor capaz de trabalhar o que o aluno já trás consigo e transformar isso em conhecimento. Quando se tira o enfoque da educação da transmissão de algo (e isso não acontece apenas com a filosofia, mas ressalto toda questão educacional) e coloca em algo que o aluno já trás consigo, ficando ao professor a tarefa de gerar o conhecimento, o professor tem sua função deslocada e o que vemos hoje é a dificuldade de se descobrir seu novo horizonte. O problema é em toda estrutura educacional que não se reestruturou diante desse novo aluno que acabou de aparecer. A discussão passa pela questão: que professor é esse que tem que nascer? Qual seu papel? – o que tenho visto nas escolas é o despreparo do corpo de professores diante dessa situação. O professor que detém conteúdo necessário, mas que peca em didática por tentar aplicar ainda hoje o que servia para o aluno de ontem. O resultado não foge ao que temos notícia: alunos fora das salas de aula, alunos que não cumprem com os requisitos das aulas, alunos que não respeitam os professores ou mesmo que não vê neles alguém que trás consigo algum tipo de autoridade (se é que o novo professor trás alguma autoridade).
A própria idéia de educação tem ficado polissêmica nas instituições de ensino, até numa única instituição os professores não tem clareza do conceito. Dessa forma, a dificuldade por um ponto de partida é logo imediata. Talvez devêssemos nos ater ao método socrático da maiêutica e sairmos da postura de professor que deve transmitir algo para assumirmos uma postura de quem trabalha o que o aluno tem e o transforma em conhecimento. Talvez encontrássemos respostas nos antigos filósofos para os dias de hoje e sairíamos de uma posição pouco privilegiada para assumir um posto mais próximo do aluno de hoje que não vê autoridade no professor, mas o professor ainda sustenta essa aparência. Talvez somente assim, “dando a luz” ao que os alunos trazem para as salas de aula, poderíamos encontrar novas respostas para o ensino brasileiro.
Assinar:
Postagens (Atom)